17 de março de 2011

QUE FEIO, SERVIDOR!

Não consigo me imaginar escrevendo poucas palavras, ainda mais quando essas palavras estão tentando traduzir um sentimento complexo e notório como a saudade; assim como também não passa pela minha mente a idéia de mandar os famosos “depoimentos” do Orkut com ínfimas frases desprovidas de naturalidade e todo aquele cínico “copiar e colar” típico dos internautas. Considero isso um crime realmente infenso à beleza inefável de uma boa amizade. Grandes amizades exigem grandes textos, e isso não é lá a coisa preferida da web (e muito menos dos adolescentes que a usam).

Depois de quatro tentativas frustradas de enviar um desses depoimentos para minha amiga, desisti. “Seu depoimento é muito grande”, dizia-me, zombeteiro, o aviso em vermelho vivo localizado acima do perfil. Muito grande? Eu mal havia preenchido duas páginas! Minutos antes eu me censurara por não ter conseguido acrescentar mais nada à carta. E agora estou simplesmente impedida de compartilhar minhas “mal traçadas linhas” com minha amiga. Claro que existem outros meios de enviar textos longos pela Internet, utilizando, por exemplo, o e-mail, mas eu definitivamente perdi o gosto de endereçar qualquer outra coisa eletronicamente. Ou, pelo menos, coisas que eu considere importantes, em especial textos sentimentalistas destinados a amigos que não vejo há tempos.

Sinceramente, acredito que cartas escritas à mão, em folhas de caderno, enfeitadas com canetinha bic, adesivos da pucca e colagens retiradas de uma revista são muito mais tocantes e valorosas do que recados ou depoimentos curtos, concisos e mecânicos de uma página de relacionamentos. Na folha de caderno você pode utilizar recursos que nenhum computador de software avançado oferece (ainda): a beleza desajeitada e imperfeita de um desenho, o capricho humano e sincero de uma caligrafia manuscrita, a embalagem amarrotada de uma trufa que você dividiu com o amigo...

A atmosfera fria do perfeccionismo tecnológico te limita, te reduz, impedindo que o calor do seu sentimento transpareça no aglomerado binário de pulsos elétricos que viaja até o computador do seu amigo. Ficamos reduzidos a um “te amul”, “te dolluh” ou a qualquer outra frase clichê escolhida em um desses sites voltados às páginas de recados, acompanhado de emoticons que tentam sem êxito plagiar a psicologia humana. E acabamos nos esquecendo da capacidade e do brilhantismo que nos valeu a fama de seres racionais ao deixarmos banalizar-se de modo tão vulgar um sentimento especial como a amizade.

E se eu quiser descrever detalhadamente toda a briga que a vizinha teve com o marido? E se eu quiser preencher páginas e mais páginas falando mal do Justin Bieber ou sobre como realmente identificar um emo? Como posso utilizar todos os adjetivos que eu quiser se disponho de poucos caracteres para isso? O que diabos eles (mas eles quem?) pensam ser liberdade de expressão?! Alguém traz um dicionário, por favor?

Juro ainda ter fé na humanidade e em suas invenções tecnológicas; contudo, em matéria de cartas poéticas, prefiro rabiscar folhas e folhas de caderno, colá-las verticalmente e poder entregá-las em segurança ao destinatário. Tenho certeza de que ele fará uma leitura muito mais voluptuosa e não me impedirá de escrever quantas páginas eu quiser...
        
 Alessandra Estevam

2 comentários:

  1. Você está mais que certa Alessandra, mas não são todos os jovens que pensam assim, muitos querem apenas a comodidade e a facilidade e coisas (textos) grandes não estão presentes nestes termos.

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  2. Concordo plenamente. A prova de que nós jovens buscamos comodidade e facilidade é sentar numa cadeira confortável na frente do pc e querer uma net mais veloz.

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